quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

M.11 Memórias da Canduxa "Porquê neste Natal?"


M.11ANDUXA

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 PORQUÊ NESTE NATAL?


Já vou mãezinha, estou só acabar a camisolinha do menino.
Está bem, não te demores que precisamos de fazer a lista das compras, respondeu com ar sorridente.
Aproveitava todos os momentos para acabar os inúmeros presentes que ainda tinha para este Natal.
Dei por mim a pensar que já nem estava tão preguiçosa para fazer aqueles trabalhitos de lã, que a minha mãe me ensinara a fazer, e que por vezes me aborreciam tanto.
Estava damasiado feliz!
Ao fim de 4 longos anos, íamos estar de novo todos juntos no Natal.
Era a mais nova de 5 irmãos e a guerra do ultramar há já algum tempo que não permitia a alegria de passarmos um Natal todos juntos.
Apesar de já ter 21 anos parecia uma autêntica criança.
A sorrir, pensava que os meus sobrinhos mais pequeninos ainda acreditavam no Pai Natal e imaginava quem seria o escolhido para se fazer passar por ele.
O céu parecia ter mais estrelas quando, naqueles dias frios de Dezembro, abria a janela do quarto e olhava para o infinito.
Será que vai nevar?
Seria ouro sobre azul!
Os manos tinham saudades da neve e os meninos ainda não a conheciam.
As árvores ficariam lindas e o jardim, que se podia ver da janela da minha casa, cobria-se com um manto branco que ninguém ousava pisar.
Ah... e que lindas aquelas flores que deixavam à mostra um pouco da sua cor!
Fechava os olhos e imaginava os pezinhos pequeninos dos mais novos enterrados na neve e a voz da minha a mãe a chamar por mim:

Vê se tens juízo, olha que os meninos podem-se constipar.
Ah, a minha cabeça não parava de sonhar, tudo me parecia tão real!
Os preparativos começaram logo no início de Dezembro e nada podia falhar, ouvia o meu pai dizer ao jantar.
Uma noite foi destinada para ele partir o bacalhau às postas. Não dava para acreditar a perfeição com que fazia tal trabalho...pareciam cortadas à régua de tão simétricas que ficavam.
Nunca consegui cortar um bacalhau assim!
Na Serra das Meadas, apanhei musgo verdinho salpicado de bolinhas de azevinho para o presépio.
Essa tarefa coube-me a mim e foi mais uma noite a desembrulhar aquelas adoráveis figurinhas de barro, pintadas à mão, que com carinho lá ia colocando em cima do musgo que cheirava a eucaliptos e pinheiros. Até consegui fazer a simulação de um rio e colocar os carneirinhos a beber água....lembro-me de ficar ali a usufruir daquela peqena maravilha...tudo tão simples e tão mágico!
O menino Jesus era único! Não só por ser de marfim, mas também pelo seu tamanho.Pequenino de tal maneira, que mais parecia uma estrelinha a brilhar em noite sem lua.
Pensava sempre nessa altura quem teria sido o autor de tal obra. Nunca vim a saber!
Montei também a árvore, a um canto do presépio, e enfeitei-a com figurinhas de chocolate em formato de pinhas, sininhos, pais natais e bolinhas.
As fitas coloridas e brilhantes, anjinhos de cartão, pintadinhos às cores, e alguns embrulhinhos que faziam lembrar prendinhas, tornavam a árvore mágica... e eu sorria feliz a olhar mais uma tarefa concluída


Uma noite o meu pai trouxe confeitos às cores, que foram distribuídos por saquinhas de pano todas iguais. Na noite de Natal era costume cada um ter o seu saquinho para poder jogar o jogo do rapa....tira, põe e deixa. Este jogo era uma tradição antiga, que quando éramos mais pequenos, nunca faltava nos nossos Natais.
Este ano vão ser para os mais pequenos, dizia o meu pai com os olhos a brilhar.
À medida que os dias passavam mais a saudade apertava e não via o dia 24 chegar.
A minha mãe comprou presentes para os netinhos e só faltava mesmo comprar os alimentos mais frescos para confeccionar os doces tradicionais.


Estava muito frio naquele dia 21 de Dezembro de 1972, em Lamego.
Combinei com a minha mãe que depois do jantar iríamos preparar a abóbora menina, que depois de cozida tinha que escorrer num saco de pano toda a noite ao relento, para no dia seguinte fazer os deliciosos bolinhos de gerimu e também a chila, não menos trabalhosa, que tinha de ser preparada com todo o cuidado.
Depois do almoço a minha mãe preparou-se para ir ao cabeleireiro e fazer uma visita de Natal a uma prima mais velha, a quem gostava sempre de levar uns deliciosos biscoitos de azeite, feitos por ela.
Fiquei em casa a terminar os últimos presentes e a ajudar a empregada nas últimas limpezas da casa.
As horas foram passando e de vez enquanto olhava o relógio sem saber o porquê da tanta demora da minha mãe.
Lembrei-me que era possível ter ido à missa das 6h e sorri ao pensar que ela adorava ir assistir, sempre que podia, a uma missinha....foi mesmo o que aconteceu!
O frio apertava!
A noite caiu trazendo consigo um frio gélido que se estendia por aquela cidade tão pequenina, mas tão acolhedora.
Espreitei pela janela e vi que o céu estava branco e quase que podia sentir o cheiro da neve.
Estava tudo a tomar o rumo certo. Até neve iríamos ter!
Comecei a preparar o jantar para que não houvesse atrasos nas tarefas combinadas e perto das 7h senti a porta da rua a abrir.
Do cimo das escadas perguntei:
Mãezinha, está bem?
Estou na cozinha a adiantar o jantar, acrescentei.
A resposta não chegou e esperei um pouco mais.
Fez-se um enorme silêncio e o meu coração bateu devagarinho. Deve estar a olhar a mala que o mano deixou pousada no meio do quarto, pensei.
Não fiquei muito convencida com aquele pensamento e desci rapidamente as escadas duas a duas, como sempre costumava fazer.
Entro no quarto e deparo com a minha mãe estática, olhando fixamente a mala.
Ainda da porta perguntei:
Sabe quem chegou?
O teu irmão, respondeu num tom baixo e sem se mexer.
Nesse preciso momento cheguei perto dela e só tive tempo de a segurar com os meus braços. Puxei-a para a cama e não sabia o que fazer. Deixou de me falar, não respondia, momentos de aflição e eu ali sozinha.... e agora?
Puxei-a com força para cima da cama e corri a chamar ajuda. Veio a vizinha e rapidamente galguei as escadas correndo 100m para alcançar a casa do médico, felizmente que ele morava perto.
Tudo se passou em 15m e já nada havia a fazer.
Fiz tudo que era possível fazer naquele curto espaço de tempo e no cimo das escadas, com a cabeça entre as mãos, saíram os primeiros soluços.
Será que alguém avisou o meu pai e os meus irmãos do que acabara de acontecer?
Não consegui levantar-me dali e não queria pensar em nada. O meu corpo e a minha alma recusavam-se a aceitar tudo o que tinha acontecido tão de repente.
Finalmente chegou o meu pai e irmão e alguém avisou os outros, que rapidamente vieram do Porto.
Nessa noite, destinada a fazer tantas coisas deliciosas, estávamos ali inconsoláveis, olhando uns para os outros e com os olhos banhados de lágrimas.

Na minha cabeça martelava a frase: Porquê neste Natal?


Só mais tarde e ao longo dos anos consegui obter uma resposta para tudo que acontecera.
Foram dois dias longos, onde não conseguia muito bem distinguir o que era ou não real.
Lembro-me que ali, perante o corpo sem vida da minha mãe, prometemos mantermo-nos unidos e amigos para sempre.
Era o grande sonho da minha mãe… a UNIÃO da sua família.
Passamos o Natal no Porto, em casa da minha irmã mais velha, e juntamente com o meu pai fomos aceitando a sua partida.
O seu espírito, a sua memória, a sua presença e o seu sorriso ficaram connosco para sempre e todos os seus ensinamentos ganharam uma nova dimensão na vida de cada um de nós.
Ela foi sem dúvida o nosso melhor exemplo!
A partir desta data, começamos a celebrar o Natal sempre juntos e esta mulher maravilhosa é sempre recordada como a mãe mais linda, bondosa, doce e sábia que soube educar os filhos com muito amor e grande espírito de união.
Toda a sua vida e a sua partida, neste Natal, fez de nós a família que hoje somos.
Uma família muito especial.... que ama, perdoa, é solidária e acima de tudo mantêm-se unida nos bons e nos maus momentos.


Acredito que nada na nossa vida acontece por acaso!


Neste Natal, terei a idade que a minha mãe tinha quando partiu, talvez por isso e porque ela é uma presença viva e constante na minha vida não poderia deixar de partilhar, convosco, estas memórias de Natal.

                                                     
Obrigado Quica por nos teres desafiado a escrever as nossas Memórias de Natal.

Feliz Natal!

8 comentários:

Pó de Estrela disse...

Minha Querida Canduxa

Ontem ao falar contigo, e hoje ao colocar a tua Memória aqui no meu cantinho,apercebi-me mais uma vez que a intervenção Divina por vezes nos custa a compreender e a aceitar, porque não temos a a capacidade de "querer ver"mais longe, levados pela angústia, pelas saudades, pelas interrogações!

Sei pelo que me contaste que a tua Mãe tem sido o esteio de união de vocês todos e uma lembrança de RESPEITO uns pelos outros, seguindo o exemplo da tua Mãe.

Eu, que Graças a Deus Acredito no Divino, também acredito, tal como tu que a tua Mãe continua entre vós, como um Espírito de Natal que acarinha os vossos corações e une as vossas almas.

Tenho a certeza que ela, já leu esta tua memória e que por entre a poeira de Estrelas,o seu rosto esta radiante , espalhando o seu sorriso nos vossos corações.

Estou muito FElIZ por ter tomado esta iniciativa, mas eu é que tenho de agradecer a todas, porque se não fosse a vossa disponibilidade fisica e emocional, nada teria passado de um sonho.

Beijinhos minha querida que encontres sempre no teu coração o sorriso da tua Mãe

RETIRO do ÉDEN disse...

Venho agradecer uma vez mais por termos tido a possibilidade de revermos os nossos momentos...

Foi muito lindo tudo o que por aqui tem passado.

Meu pai, também fez ontem cinco anos que partiu... é sempre muito triste...mas nesta altura ainda é mais sentido se pode dizer!
Ainda para mais, quando não se está a contar... meu pai no dia 15DEZ04 de manhã ainda foi ao WC e ainda lhe deixei o saco de água quentinha para ficarem quentinhos os dois (pai e mãe) e quando me estava a preparar para sair para fazer serviço cívico...toca o telefone do 6º. andar para o 13º que é onde habito, onde minha mãe dizia que o pai lhe tinha dado uma grande dôr e não sabia que fazer. Descemos de imediato o elevador eu e meu marido...foi só o tempo de chamar o INEM. Tinha-lhe rebentado o aneurisma. Ainda foi operado, correu bem, mas às três da tarde pereceu, sózinho numa cama de hospital.
Se soubessemos não o tinha deixado operar, nem sair de minha/dele casa. Vivemos todos no mesmo prédio.
Isto às portas do Natal, custa parece que o "dobro" se pode dizer!
Domingo anterior, tinha-o levado de carro, a ver a Árvore de Natal gigante, que estava nos Jerónimos...ele tinha gostado do passeio...e da Árvore.

Bjs.
Mer

Tite disse...

Acabei de decidir qual a Memória a que iria atribuir a nota máxima.
Esta da Canduxa.
As Memórias lindas, felizes e cheias de Magia são mais fáceis de lembrar.
Esta... tem a magia de acreditar que a Mãe não os abandonou, só se transformou para todo o sempre nos seus corações até que eles queiram.
Comoveu-me e por isso, atribuo-lhe a nota máxima que a dona deste blog nos permite.
Abraços a todos mas um especial e solidário para a Canduxa

BlueVelvet disse...

Sempre quero ver como vais descalçar a bota para escolher o texto vencedor:)))
Beijinhos

ematejoca disse...

Qual das histórias é a vencedora é pura e simplesmente irrelevante.
O que conta é a ideia da Quincas, e o prazer de se ler e escrever histórias de Natal.

Ler A Memória de Natal da Canduxa foi para mim muito doloroso, embora tenha gostado muito dela.

Quase ninguém compreendeu o final da minha história, por isso, escrevi uma segunda parte. Por favor, vai buscá-la ao "ematejoca azul" e assim já ficas a saber como a Vanessa reagiu à minha maldade!!!

ematejoca disse...

Não hesito em considerar as
"Memórias de Natal" da Caduxa uma das mais lindas e tristes histórias de Natal, que li até hoje... e já li muitas: nacionais e estrangeiras.

"Os tomates do perú" é a meu ver irresistivelmente cómica, fica portanto para mim em segundo lugar - esta é a minha opinião, apesar de eu ser contra vencedores e vencidos. Sem dúvida, que todos ganhámos em entrar neste concurso, e pela minha parte em te conhecer.
Obrigada, Quincas!

ematejoca disse...

Não hesito em considerar as
"Memórias de Natal" da Caduxa uma das mais lindas e tristes histórias de Natal, que li até hoje... e já li muitas: nacionais e estrangeiras.

"Os tomates do perú" é a meu ver irresistivelmente cómica, fica portanto para mim em segundo lugar - esta é a minha opinião, apesar de eu ser contra vencedores e vencidos. Sem dúvida, que todos ganhámos em entrar neste concurso, e pela minha parte em te conhecer.
Obrigada, Quincas!

poetaeusou . . . disse...

*
e a chancela da Canduxa,
legaliza esta sagrada escrita,
,
conchinhas sensíveis, deixo,
,
*