sábado, 12 de dezembro de 2009

M.8 Memórias da AnaVeludinho "Um Natal na Terra "




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   Natal Na Terra





Eu não tenho terra. Nunca tive.
 Nascida e criada em Lisboa, sou aquilo que se chama uma "alfacinha de gema", embora não tenha nem um grande amor pela cidade nem nunca lhe tenha descoberto a tal luz especial que tantos falam. Reconheço que deve ser uma deficiência minha, mas é assim, os seus amantes que me perdoem. Há zonas de que gosto mais do que outras, mas amá-la, não amo.
Pequenina, no colégio, sofria daquilo que considerava um enorme defeito, que era não ter "terra". Sobretudo na época das férias grandes ou no Natal e Páscoa, quando as minhas amiguinhas iam todas para a terra e eu não.
Assim, porque mesmo pequenina já era muito voluntariosa, cheguei um dia a casa e disse ao meu Pai:








Papá, eu quero uma terra. Tem que me comprar uma terra!
Ele olhou-me com olhos atentos como sempre fazia quando eu falava com ele e disse-me que eu já tinha muitas terras. Que agora ainda não eram minhas, mas que um dia seriam.
- Não, eu quero uma terra agora.
E expliquei-lhe o meu problema.
Mais aliviado, ele disse-me que se o problema era esse, então podia escolher entre a terra da minha mãe, no Alentejo, ou a dele, perto de Óbidos.
Resolvi ficar com ambas. Naquela altura, sentia mais a dele como minha, por ser lá que a minha avó tinha a quinta e lá passar toda a família, o Natal.
Só muito mais tarde vim a descobrir o encanto do Alentejo e por ele me apaixonei, dizendo hoje a todos que sou alentejana.
Assim, no último dia de aulas, com um ar blasé enquanto guardava as coisas na minha minúscula pasta, deixei cair:
- Tenho que me despachar para ir fazer as malas. Logo à noite, vamos para a terra.
Ninguém me ouviu mas eu senti que algo na minha vida tinha mudado.

A casa da quinta era enorme, e disso já aqui falei o ano passado, e embora fosse na enorme sala que todos se reuniam e conversavam junto à lareira ou com os pés metidos debaixo de camilhas, em pequenas mesas redondas com braseiras, era a cozinha que me fascinava e era nela que passava parte do dia e um pouco da noite, nas vésperas de Natal.
Havia o grande fogão de ferro, com muitas bocas e outras tantas portinhas, uma de cada tamanho, onde as criadas ( que me perdoem as auxiliares domésticas) iam metendo madeira para manterem o fogo sempre aceso.
Havia uma enorme mesa com tampo de mármore onde se alinhavam os alguidares que tinham, todos um destino: o das batatas, o das couves, o das filhoses que depois era embrulhado em cobertores e posto junto ao fogão para levedarem, e um espaço destinado a bater a massa do pão e dos bolos que depois seriam cozidos no forno de lenha.


Aquela azáfama tinha uma magia que me atraía como as lâmpadas atraiem os insectos. Toda aquela gente trabalhava como uma orquestra bem ensaiada, debaixo da batuta da minha avó.
Esta minha avó não era a minha preferida. Tinha até um pouco de medo dela. Era austera demais e isso brigava com o espírito livre e desalinhado que sempre tive.
Sendo viúva, era ela que se sentava na cabeceira da enorme mesa ficando à sua frente o filho mais velho, o outro a seguir do seu lado direito e assim sucessivamente, com os filhos de um lado, as noras de outro e os netos e a neta ( eu era a única menina), intermeados no meio de toda aquela gente. Em noites de Natal, à Ceia, éramos mais de 25 à mesa.

Depois de ela fazer a oração habitual, podíamos então iniciar a refeição.
Naquela altura, mandava a tradição que depois de virmos da Missa do Galo rezada na capela da quinta, todas as crianças punham o sapatinho na chaminé, já que os presentes só eram abertos na manhã seguinte.
Nunca percebi porque razão os adultos também tinham presentes, se nunca lá vi os sapatos deles, mas isso é outra história.
Todos os Natais era a mesma coisa: depois da Missa e da Ceia, as crianças iam para a cama, o meu pai e os meus tios ficavam a conversar na sala e as mulheres iam para a cozinha, o que aliás muito irritava a minha avó.
Naquele Natal, devia ter os meus 5 anos, resolvi sair da cama e ir espreitar a chaminé para ver se já lá estavam os presentes.
Escondida atrás do reposteiro que tapava a porta da cozinha, preparava-me para espreitar quando ouvi esta frase, dita pela Ermelinda, a mais velha cozinheira da minha avó:
- Bom, vamos lá então tirar os tomates ao perú!
 


- Ó Ermelinda, tenha modos - ouvi a voz severa da minha avó.
Fiquei imóvel e estarrecida. Então o perú tinha tomates? E iam tirar-lhos? E comiam-se?
Dei meia volta sem seque me lembrar dos presentes e fui enfiar-me debaixo dos cobertores, na minha cama, com aquela dos tomates na cabeça.
No dia seguinte, mal o sol raiou, eu e os meus primos, todos em pijama, corremos para a cozinha, onde, como sempre, os presentes nos esperavam.
Foi a confusão do costume, à qual se seguiu um lauto pequeno-almoço com todos os doces tradicionais de Natal mais os típicos da zona e depois fomos todos arranjar-nos para a Missa do meio-dia, essa na capela da aldeia.
Quando chegou a hora do almoço, todos sentados nos seus respectivos lugares, eis que entra com pompa e circunstância o enorme perú, todo enfeitado.
 


Era assim todos os anos.
Depois da avó dizer a oração, o filho mais velho trinchava o perú como um ritual.
Mas aquele almoço ia ser diferente.
De repente, e antes que o meu Pai começasse a trinchar o bicho, eu cortei com os rituais e as regras todas e tornei aquele Natal tão inesquecível que ainda hoje oiço uma certa pergunta, nos almoços de Natal, hoje infelizmente já com quase ninguém desse tempo presente, excepto os meus primos e os meus pais.
Levantei-me e pus-me de joelhos em cima da cadeira para ficar maior e alto e bom som disse:
- Eu quero os tomates do perú!
Fez-se um silêncio total por uns segundos, após o que, todos tentavam controlar o riso, excepto a minha avó, que mantendo o seu ar de sempre ( embora, acho eu, tivésse ficado com o carrapito um bocado de lado, mas se calhar foi impressão minha...) me disse:
- A menina sente-se e não diga disparates.
Depois do almoço tentei que alguém me explicasse o que era isso dos tomates e porquê que não mos tinham dado, mas o mais que consegui foi que a Ermelinda me respondesse com ar jocoso:
- Ó menina, isso o melhor é perguntar às peruas!
O facto é, que ainda hoje, à chegada do perú à mesa, me perguntam: então e continua a querer os tomates?




Só que agora essa pergunta provoca em mim um sorriso nostágico, até uma lágrima ao canto do olho, pelos Natais maravilhosos da minha infância que se foram para sempre.

Ana Barbosa Souto

14 comentários:

Pó de Estrela disse...

Olá Ana veludinho

Cá está a tua memória como prometido.

Devo dizer-te que me fartei de rir com a tua história, que claro, adorei!

Estive para pôr umas imagens com os ditos, mas depois ficavam todos embasbacados a olhar para eles e já não liam nada, portanto é melhor ficarmos por aqui.

Afinal o que é que a Ermelinda lhes fazia) eheheh!

Beijinhos com todos os sabores de Natal

Fernanda disse...

Amiga BlueVelvet,

Cá está o belíssimo texto que me fez chorar ontem com o riso ao lê-lo no teu Blog.

Gosto muitíssimo mesmo, da forma como escreves. Sempre a tocar o hilariante.
São estes textos que nos dispõem bem e eu sou amante da boa disposição.

Fiquei sem saber se já alguma vez provaste os ditos tomates :)))
Eu já !!!

Beijinhos à promotora, que finalmente vi o rosto hoje, belo e todo soridente, e muitos para ti.

Brancamar disse...

Gostei muito da história e das recordações de infância. Natal na terra é outra coisa, nada que se compare o da cidade, :)
Beijos para as duas meninas, o Pózinho de estrelas e para a Ana Veludinho.
Branca

Lina Querubim disse...

Boa noite Quica, adorei esta história :)da Ana Veludo o querer ter uma terra e ficar com duas de um momento para o outro, a felicidade de dizer: "Tenho que me despachar para ir fazer as malas. Logo à noite, vamos para a terra."
Não era preciso que ouvissem bastava ouvires tu :)
Muitas coisas aqui descritas me lembra o Alentejo não o Natal porque nunca o passei lá mas...em outras alturas que lá fui quer no verão ou inverno.
E até aquelas coisas que nos irritava agora trazem saudades...

Agora... porque diziam que tiravam os tomates ao bichinho?! :p é que tb sou Alfacinha de Gema!

Beijinhos para todos adoro as vossas histórinhas :))) fiquem com os Anjos
Adorava saber escrever como vocês :p

Teresa disse...

Olha que bom chegar aqui e ver uma história da Ana!! :))

eu que leio tantas dela...!! E ela tantas minhas!!

Oh Blue... Lembras-te do meu post do ano passado do Natal??? ahahahah
A risota que foi??
É esse que vou mandar à Quica, quando tiver tempo de o ir buscar e mandar e isto e aquilo!!

A anaVelvet tem histórias fantásticas, todas vividas na primeira pessoa... Umas vezes felizes, outras não. Mas a vida mostra-lhe que todas são importantes, não é, Blue? :)

Bem, mas Quica, o que aqui me trouxe não foi o Natal, mas sim para lhe dizer que amanhã sem falta... Trim... Trim... ;)

E olhe... Não arranja aqui estas bonecadas fofas para a sua colega fazer umas surpresas aos alunitos dela?? ahahahha
Beijinhos meus e da minha sobrinha Joana! :)

Pó de Estrela disse...

Teresinha, teresinha!

Eu já tinha perguntado na vó Tité se aqui as estrelas tinham pó de mico?

Claro que podes levar a bonecada toda e mando-te mais por mail ( espero que ainda seja o mesmo, se não ainda vão parar às barbas do Pai Natal e ele zanga-se comigo, porque este ano, o meu natal é do Menino Jesus!)

Fico à espera do Trim...Eu digo : Estou...( estou sempre)

Beijoquinhas com cheirinho a canela em cima de arroz!

BlueVelvet disse...

Querida Pó de Estrelas,
muito obrigada pelas ilustrações que puséste na minha história.
Ficou logo diferente.
Só agora relendo, é que vi que tenho um erro, logo no ínício: um deficiência minha ( UMA).
Se não te der muito trabalho mudar...
Quanto aos "ditos" do perú, julgo que não se comem. Pelo menos nunca tal vi e suponho que o que a cozinheira queria dizer era que iam atacar o perú que boiava num alguidar com àgua, rodelas de laranja e mais não sei quê, porque continuo sem saber fazer o perú.
Muitos beijinhos e obrigada.

Ps: Não sei quem é a Teresa que me veio descobrir aqui. Será a dos ovinhos?

RETIRO do ÉDEN disse...

Que bela história de natais...
e porque não?...de tomates...
Fez-me lembrar uma vez que tinha acabado uma refeição e até me tinha sabido bem. De seguida me perguntaram se sabia o que tinha acabado de comer...eram tomates de carneiro, já nem lembro como era cozinhado...só sei que a correr fui ao toilete!

Um excelente Natal desejo a todos com ou sem,(aquela coisa que se falou acima), mas com muito Amor.
Bjs. sinceros
Mer

Pó de Estrela disse...

Veludinho

Claro que a Teresa é a nossa Ovinho, mas não quis dizer nada, porque não sabe como é que vai nascer, se pinto, se pato, se perú. Como deves compreender é um assunto complicado!!!ihihih!
Vou já corrigir a tua deficiência! Nem dei por ela.

Beijinhos docinhos e resto de Bom Domingo.

Pó de Estrela disse...

Mer

Isso já aconteceu ao meu marido e a reacção foi a mesma!!!

Quanto às histórias, estão todas muito boas e bastante diferentes umas das outras!

Resto de Bom Domingo para vós. Um beijinho cheio de luz

Anónimo disse...

Oh rapariga!! quem foi das primeiras a chamar-te Blue?? Moi!!! O egg "estreleite"!! :D

Têm razão, eu decidi mudar isto para Teresa e nem mandei um mail formal a avisar!! Sou tão desleixadinha, cruzes!! Não gostem mais de mim!! :D

Bem, Quica Maria... acabei de lhe dar um sermão ali na Tité... e já me demorei por lá demais e ainda tenho 495849545 imagens fofas com esses bonequinhos natalícios de banda desenhada para roubar daqui... De maneira que nbem lhe dou trela aqui!!

Fuii..... de tesoura para recortar aí os bonequitos!! :D

beijosssssssssss

Teresa*

Canduxa disse...

Querida estrelinha,

Mais uma hilariante memória de Natal...lá para os meus lados diziam "vamos tirar a tosse ao perú". Havia sempre uma forma engraçada de dizer que tinham de ir tratar do bichinho.
Gostei muito destas memórias e fartei-me de rir....muito humor e boa disposição.

Beijinho e abraço apertadinho

Teresa disse...

Quica Maria!! Mails fecebidos, abertos e bonecada imprimida!! Merci beaucoup!! :))
Vai ser um sucesso!!

Beijossssssssssssssss!!!

(Amanhã não me esqueci!! Eu ligo-lhe para falarmos e combinarmos a entrega. Não vou estar durante a semana lá por casa, o que vai facilitar mais porque estou mais pertito de si. Saio do colégio e não tenho aquele trânsito medonho, o que me deixa mais um tempito livre. Depois ligo, sem falta. Beijinhos)

ematejoca disse...

Muito obrigada pela sua visita ao "ematejoca azul" - esta tarde tenho visitas, mas hoje à noite vou enviar-lhe a minha história de Natal verdadeira.